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A obesidade é considerada uma doença multifatorial: envolve componentes genéticos, metabólicos, hormonais, comportamentais, culturais, psicológicos, sociais, etc. Esta constatação aponta para a necessidade de uma investigação interdisciplinar. Na verdade, a obesidade é uma doença de difícil tratamento e representa um grande desafio para as diferentes áreas do saber. O "olhar" do psicólogo contribui para o entendimento e tratamento desta patologia.
No caso do tratamento cirúrgico da obesidade algumas pessoas questionam a necessidade de um acompanhamento psicológico por considerar suficiente a intervenção médica. Acreditam que a cirurgia ao impor uma restrição alimentar já é o bastante. Entretanto apenas o corte no estômago não garante o sucesso do tratamento (que não se reduz à perda de peso). Na clínica, de um modo geral, constatamos que a boa evolução do mesmo (a curto, médio e longo prazo) está atrelada a outros fatores que vão além do sucesso do evento cirúrgico em si. A postura do paciente também irá contribuir ou não para a evolução satisfatória do tratamento. Na abordagem clínica do excesso de peso, o papel do psicólogo fica um pouco mais claro pois o paciente consegue ter uma maior percepção da sua responsabilidade no processo de perda e manutenção do seu peso. Nesse caso, o insucesso da terapêutica é mais facilmente atribuído às dificuldades pessoais (de seguir as orientações médicas). No caso do tratamento cirúrgico, o paciente tende a achar que o insucesso é proveniente da técnica cirúrgica, sem se implicar na questão.
A redução do estômago impõe uma mudança radical no comportamento alimentar, provocando uma perda de peso rápida e significativa. A velocidade com que o corpo emagrece não é acompanhada pelo psiquismo da mesma maneira. A nova imagem adquirida será introduzida na realidade psíquica de forma mais lenta, a partir da própria vivência e experiências com o "novo corpo" e isso demanda tempo. Pouco a pouco a imagem "psíquica" vai se aproximando da imagem real. O tempo que cada um leva para internalizar o novo contorno corporal é muito particular e às vezes necessita de intervenção profissional.
Não é possível antecipar o que cada um irá sentir, pois isso depende em grande parte do "lugar" que a obesidade ocupa na vida do indivíduo: para uns a gordura pode representa proteção, poder, força; para outros pode servir de justificativa para o isolamento, dificuldades com a sexualidade, etc. Dessa forma, o emagrecer também repercute no psiquismo, podendo aproximar o sujeito de questões que até então estavam encobertas pela gordura. Nesse sentido, podemos inferir que alguns "boicotam" o tratamento por não conseguir lidar com questões que podem emergir com o emagrecer. Isso não é regra, mas consideramos importante sinalizar essa possibilidade.
As mudanças geralmente não afetam apenas àquele que se submeteu à cirurgia, mas a todos que estão a sua volta. Então podemos falar de uma etapa de adaptação não apenas em relação ao comportamento alimentar e a nova imagem corporal, mas também nas relações interpessoais. É comum após a cirurgia a pessoa se sentir mais satisfeita consigo mesma, mais segura, mais feliz e disposta a viver. Isso pode provocar estranhamento e insegurança no outro... principalmente no parceiro amoroso. Consideramos que quando a família participa do processo essas questões tendem a ser minimizadas.
Veja também Grupo Recorte - Grupo Psicoterapêutico Pós-Cirúrgico