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Homem vai do RS a Brasília em luta contra a obesidade


Ele quer pedir a Lula o aumento de cirurgias financiadas pelo SUS. No caminho, perdeu peso, conseguiu namorada e enfrentou preconceito.

O autônomo Cristiano Pinto dos Santos, de 34 anos, pretende caminhar de Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, a Brasília para chamar a atenção para a situação dos obesos no Brasil.

O homem, que perdeu quase 160 quilos após uma cirurgia de redução de estômago - e não se incomoda de ser chamado de "gordo" - chegou à metade dos 2.700 km a serem percorridos nesta quinta-feira (15), com uma parada na Avenida Paulista, no Centro de São Paulo.

Todo o esforço do autônomo tem o objetivo de alertar as autoridades para a necessidade do aumento de cirurgias de redução de estômago financiadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “O Ministério da Saúde ainda não reconhece a obesidade como uma doença. Hoje esperamos anos para conseguir uma cirurgia pelo SUS”, conta.

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, Luiz Vicente Berti, há dois milhões de brasileiros com obesidade mórbida. A média de espera para a realização da cirurgia pelo SUS, segundo ele, é de cinco anos. “A obesidade está aumentando no país. É possível que em cinco ou dez anos, nem as seguradoras nem o governo dêem conta de pagar por essas cirurgias”, acredita.

Santos fez a cirurgia de redução de estômago há cinco anos e, de 280 kg, conseguiu chegar aos 126 kg. Muito mais leve, ele decidiu caminhar os mais de dois mil quilômetros para chamar atenção para os obesos e tentar uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até agora, Santos não conseguiu marcar a reunião e já obteve uma resposta negativa. “Mas vamos insistir até o último momento”, disse.

De mochila nas costas, boné, bermuda e camiseta, Santos deixou a cidade do Sul em 2 de janeiro. A meta é chegar a Brasília em 9 de julho. Dos 1.350 km percorridos até São Paulo, 1.250 foram feitos a pé. “Peguei carona nos trechos de serra, que não têm acostamento nem lugar de recuo para eu montar minha barraca”, contou. Ele já passou por quase 50 cidades.

A preparação para a caminhada demorou seis meses, com uma médica especializada na preparação de atletas. O autônomo carrega um aparelho que monitora os batimentos cardíacos e envia os dados pela internet. Assim, a médica pode acompanhar à distância como está a saúde do paciente.

Santos caminha de 15 a 20 km nas oito horas diárias que fica na estrada. As refeições – seis por dia - são feitas em restaurantes à beira das rodovias ou em casas de famílias. Por causa do grande esforço, o autônomo bebe seis litros de água por dia. Ele dorme em uma barraca montada nas estradas.

O autônomo fica em São Paulo até 5 de abril, quando segue a caminhada até Brasília. Na cidade, tem uma agenda de compromissos como palestras para obesos em hospitais.

Apesar de não ser o objetivo da viagem, Santos já perdeu seis quilos desde Cachoeirinha. Na estrada, ele também começou a namorar a artista plástica Irma Serra, de 44 anos, uma ex-obesa que decidiu ajudar Santos na caminhada. “A vida do Cris e a minha se confundem. Temos histórias parecidas”, conta Irma.

A artista plástica mora no Rio de Janeiro e fez a cirurgia há três anos. Ela pesava 200 kg e emagreceu 115 kg. “Eu já nasci obesa, então nunca soube o que é ser magra”, disse, enumerando as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com excesso de peso.

O principal problema, segundo ela, é afetivo. “Imagine se alguém quer por perto uma pessoa com 200 quilos”, reclama. Santos é o seu segundo namorado. O primeiro namoro aconteceu apenas após a cirurgia de redução de estômago, quando ela já tinha mais de 40 anos.

Santos também enfrentou muitas dificuldades para encontrar uma namorada. “É uma parte que eu pensava que estava excluído”, contou.

Apesar das boas coisas que encontrou pelo caminho, ele reclama do preconceito que sofreu de algumas pessoas que passavam pelas estradas. “A maior dificuldade foram algumas pessoas que, de mal com a vida, externam o sentimento em outras pessoas”, contou, recordando as maldosas piadas que precisou ouvir no trajeto.

Fonte: g1.globo.com

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